Importadores perdem crédito e têm de pagar encomendas à vista

Publicado na edição imprensa e online (para assinantes) do Jornal Valor Econômico em 09 de maio de 2016
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Ari Gorenstein, sócio da Evino, loja virtual de vinhos, importa diretamente bebidas que respondem por 80% de seu faturamento. Cerca de 70% do que a empresa importa, conta o empresário, são vinhos europeus. Entre seus principais fornecedores está um exportador francês do qual ele adquiria, até outubro do ano passado, vinhos com prazo de pagamento de 90 a 120 dias da data da colocação formal do pedido de
compra.

O prazo valia para € 160 mil em vinhos que a Evino adquiria de locais de produção. Em outubro do ano passado, porém mês seguinte à perda de grau de investimento na nota soberana do país pela Standard & Poor’s (S&P) , o crédito de Gorenstein foi cortado para € 30 mil. As compras superiores a esse valor teriam de ser pagas à vista.

Gorenstein foi informado pelo fornecedor francês que a seguradora contratada para as operações comerciais cortou o crédito nos embarques para as empresas brasileiras.

A Evino não foi um caso único. José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), diz que além da desvalorização do real frente ao dólar cerca de 30% desde o início de 2014, muitas empresas que precisam importar bens para manter a atividade enfrentam algum tipo de corte no crédito, que se traduz na redução de prazo de pagamento e, nos casos mais extremos, no pedido para pagamento à vista.

“Isso acontece porque o país perdeu seu grau de investimento e também pelo conjunto de notícias negativas sobre o país, incluindo dívida bruta do governo federal e toda a crise política interna”, afirma Castro.

Flavio Antonio Paiva, secretário-geral da Associação Brasileira dos Importadores de Máquinas e Equipamentos Industriais (Abimei), conta que, com a perda do grau de investimento, os importadores de bens de capital passaram a fazer um adiantamento maior de pagamento. “Antes se exigia, em média, 10%. Agora chega-se a pedir 30% do valor da importação.” Essa exigência tem acontecido mesmo com fornecedores de longa data. “Há sempre um agente financeiro envolvido na operação que leva em consideração o rating do país para a avaliação de crédito.” Ele explica que o agente não quer correr o risco e não cobre a operação do exportador.

“Temos US$ 375 bilhões em reservas e o risco cambial é mínimo, mas o país deve completar três anos seguidos de retração do PIB”, diz Castro. Além de terem retirado o grau de investimento, lembra, as agências consideram negativa as perspectivas do país. Na semana passada, a Fitch baixou em mais um degrau a nota soberana. Com isso, o Brasil está atualmente dois níveis abaixo do grau de investimento não só na avaliação da Fitch como também da Moody’s e da S&P.

Nesse cenário os prazos de pagamento, conta Castro, têm sido reduzidos mesmo para aqueles que têm histórico de bom pagador, porque os dados mostram crescimento do número de empresas inadimplentes. Segundo a Serasa Experian, por exemplo, o número de recuperações judiciais requeridas no primeiro quadrimestre de 2016 foi 97,6 % superior ao registrado no mesmo período do ano passado.

Para os importadores, as únicas alternativas são pagar à vista ou obter uma carta de crédito, diz Castro. A segunda opção, porém, tem custo financeiro que muitas vezes inviabiliza a operação.

“Além do custo financeiro, esse tipo de garantia consome parte do limite total de crédito que a empresa tem com o banco”, explica Paiva, da Abimei. Dificilmente o importador tem crédito suficiente para todas as operações e o fluxo das importações não permite a recomposição dos limites.

A exigência de maior parcela de adiantamento, diz Paiva, é generalizada. Os principais fornecedores das empresas reunidas na Abimei são da Coreia, Taiwan, China e, entre os países europeus, Alemanha e Espanha.

No caso da Evino, conta Gorenstein, a empresa chegou a pagar algumas compras à vista logo que o corte de crédito foi feito. A empresa, porém, entrou em contato com a seguradora do fornecedor francês. Em reunião em Paris, o empresário apresentou dados sobre a atividade da Evino, além das demonstrações financeiras da empresa.

O empresário conta que, a princípio, a seguradora contratada pelo exportador francês não queria recebê-los porque não tratava com “cliente de cliente”. Mas, com o apoio do fornecedor europeu, conseguiu a reunião e, mais tarde, o crédito foi restaurado. Em abril, porém, menos de seis meses depois, a seguradora determinou novo corte, que fez Gorenstein se reunir novamente com os analistas de risco da seguradora francesa.

Ele explica que o prazo de 90 a 120 dias é essencial para seu negócio porque é o tempo que a mercadoria demora, após a colocação do pedido, para ser desembarcada e estar pronta para ser comercializada no centro de distribuição que a Evino mantém no Estado do Espírito Santo. Atualmente, conta Gorenstein, o crédito está restabelecido, mas há certa insegurança na situação. Para ele, o cenário brasileiro tem prevalecido. “Mesmo para clientes como nós, com bom histórico de pagamento e situação financeira forte.”

A restrição financeira imposta para os importadores brasileiros mostra como a percepção do cenário do país é crítica, diz Castro. “Estamos num momento em que há contração da demanda no mundo inteiro e nessa situação os fornecedores fazem exatamente o contrário, se esforçam para facilitar a venda porque querem manter o cliente.”

Apesar da crise, diz Gorenstein, as vendas da empresa têm crescido. No primeiro trimestre deste ano, o número de garrafas comercializadas pela Evino cresceu 60% contra igual período do ano passado. O câmbio, conta, fez a empresa cortar parte da margem de lucro, ao mesmo tempo que os preços foram renegociados com o fornecedor e o mix de vinhos importados foi alterado. “A ideia foi manter um bom custo-benefício para os clientes. ”

Castro lembra que a negociação de preços entre fornecedor e importador é estratégia generalizada com a depreciação do real. Isso tem resultado, na prática, na queda de preços médios, em dólar, dos produtos importados. Segundo dados da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), os preços médios das importações totais brasileiras caíram 10,5% no primeiro trimestre do ano. No setor de bebidas, o recuo foi de 8,5%.

Denise Naranjo, diretora de comércio exterior da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), diz que os preços médios dos produtos importados pelo setor caíram 20% no primeiro trimestre deste ano contra igual período de 2015. Como os volumes desembarcados continuaram estáveis, foi o preço que derrubou o valor importado, diz ela. “Com o câmbio desvalorizado, os exportadores fazem uma compensação no preço, embora isso não evite que o importado fique mais caro.”

Na importação de máquinas também acontece a negociação entre fornecedores e importador, em razão do câmbio, diz Paiva. “Mas os importadores também comprometem parte da margem para amenizar os efeitos do câmbio nos preços ao cliente.” Ele lembra, porém, que em alguns casos, há também câmbio desvalorizado no país fornecedor, caso da China, exemplifica, o que também facilita a negociação para reduzir preços em dólar.

Sérgio Marques, presidente da Vert, empresa do setor de tecnologia da informação e comunicação, conta que a desvalorização cambial elevou ainda mais o custo dos desembarques de equipamentos que a empresa compra do exterior, já elevado desde 2014, quando os importadores passaram a ficar sujeitos ao Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) por substituição tributária.

Nesse regime, a empresa importadora, além de pagar o seu próprio ICMS, precisa recolher antecipadamente o imposto devido nas etapas seguintes de comercialização. Isso obriga a empresa a recorrer a maior financiamento de giro. “Essa mudança tributária veio juntamente com a desvalorização cambial e com a mudança estrutural dos distribuidores de equipamentos”, afirma Marques.

O empresário explica que durante 15 anos importou diretamente os equipamentos de informática necessários para os serviços prestados pela empresa. A importação direta era mais vantajosa do que a compra dos produtos por meio dos distribuidores localizados no Brasil. Na época os distribuidores eram nacionais. Atualmente, eles são multinacionais, têm acesso a crédito mais barato no exterior e, além disso, por trabalharem com
volume maior, têm maior possibilidade de negociar preços com os fornecedores externos.

A mistura de custo de capital mais alto, dólar mais caro e um regime de tributação desfavorável ao fluxo de caixa da empresa fez Marques passar a adquirir os equipamentos por meio das multinacionais e não diretamente do exterior. Esse processo se intensificou no ano passado. “Hoje, trago diretamente cerca de 20% do que importava antes”.