Governo prepara entrada na nuvem para armazenar dados

Publicado no site em.com.br em 24 de outubro de 2016.

Por Simone Kafruni

Sem recursos, setor público opta por contratar empresas para armazenar dados, a exemplo das grandes corporações

Brasília – O governo brasileiro ainda é analógico, mas se prepara para um mergulho no mundo digital. O primeiro edital de consulta pública para contratação de serviço de armazenamento de dados na nuvem vai sair ainda neste ano. E o Tribunal de Contas da União (TCU) deve ser o pioneiro na administração pública a testar o modelo de guardar as informações de Estado fora do ambiente físico do próprio órgão ou dos datacenters (centros de armazenamento de dados) de estatais como o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e a Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência Social (Dataprev).
Com a multiplicação exponencial de dados digitais, o armazenamento na nuvem é inexorável. Não faz mais sentido o governo investir bilhões em infraestrutura, novos equipamentos e treinamento de pessoal para guardar dados que podem e devem ser compartilhados com os cidadãos brasileiros pelo princípio da transparência. Além disso, no longo prazo, isso vai representar uma redução de custos. Hoje, o governo brasileiro gasta por ano entre R$ 7 bilhões e R$ 8 bilhões em Tecnologia da Informação (TI).

O secretário de TI do Ministério do Planejamento, Marcelo Pegotti, explica que uma portaria de 2016 incentiva os ministérios e o Sisp (220 órgãos que usam TI na Esplanada) a publicarem seus dados de forma aberta. “Além da transparência, isso gera desenvolvimento de novos aplicativos”, diz. O Planejamento também proibiu a construção de salas-cofre, ambiente hermético e à prova de riscos, incluindo incêndio, onde ficam armazenados os dados de órgãos públicos. “Havia um excesso de contratação de salas-cofre, cujo metro quadrado custa cinco vezes mais do que o de um data center”, revela.
O primeiro passo já foi dado, mas o governo está na fase de classificar o que pode ou não ir para a nuvem. “Obviamente, dados de soberania nacional, de defesa e de segurança cibernética permanecerão dentro do governo, do Serpro e da Dataprev, ou dos data centers mais amadurecidos, como o da Saúde, o da Educação e o da Defesa”, garante. No meio desses dois mundos, o aberto e o fechado, há outros dados que, a critério de cada gestor, poderão ir para uma nuvem híbrida. Nesse sistema, parte da nuvem pode estar totalmente fora da empresa, como é o Gmail, e outra parte numa nuvem privada, como o Outlook da Microsoft, que é fechado dentro de uma corporação, exemplifica o secretário.
O Planejamento pretende orquestrar todas as nuvens. “O consumidor está digital e o governo ainda é analógico. Mas a nuvem é um caminho sem volta. Precisamos nos estruturar, colocar governança e segurança. Por isso, estamos fazendo edital, ouvindo o TCU e a sociedade para criar um modelo que permita a participação de players privados e públicos”, afirma Pegotti.
O presidente do TCU, Aroldo Cedraz, para quem o governo não pode mais “permanecer analógico e se prender a carimbos”, como afirmou durante o Congresso Mundial de Tecnologia (WCIT 2016) realizado em Brasília, determinou que a corte vai liderar o processo de modernização tecnológica. O secretário de Infraestrutura e Tecnologia da Informação do Tribunal de Contas da União (TCU), José Renato Alves Affonso, afirma que o presidente do tribunal, Aroldo Cedraz estimula os estudos de provimento de serviços em nuvem para o consumo do próprio tribunal. “Ele quer ter exemplos dentro de casa de como isso pode ser viável e implementado”, assinala.

Segurança não pode justificar ineficiência

O ponto de partida do processo de transferência do armazenamento de dados de órgãos públicos para a iniciativa privada é definir o que pode e o que não pode ir para a nuvem. “A cada empreitada é preciso avaliar isso com clareza, caso a caso”, diz o secretário de Infraestrutura e Tecnologia da Informação, José Renato Alves Affonso. “Devemos ser um dos pioneiros no uso deste tipo de serviço. Até o fim do ano, a gente vai conseguir executar uma contratação de nuvem”, adianta. “Precisa haver um cuidado muito grande para não usar a segurança como justificativa para não buscar eficiência. A complexidade desse ambiente, a quantidade de camadas e estruturas computacionais para prover serviços digitais leva a uma especialização muito alta. É preciso adquirir equipamentos, capacitar pessoas, e ainda há a questão da obsolescência.”, explica.
No caso do TCU, Affonso destaca que a jurisprudência do tribunal é um serviço oferecido para advogados e partes de processo para que conheçam as decisões sobre algumas matérias. “Isso tem que estar na mão do cidadão. Serviço de nuvem para esse tipo de conteúdo me parece uma excelente decisão”, antecipa. Quando se fala em nuvem pública, o requisito principal é acesso disponível. Mas ela pode ser de órgão público, como Serpro ou Dataprev, ou comercial, como das gigantes Microsoft e Google. Também existem empresas comerciais de menor porte que poderão participar das concorrências.

Oferta De olho na abertura deste mercado, a Vert, empresa integradora de soluções em TI, que oferece armazenamento, alta disponibilidade e proteção de dados, instalou um data center em contêineres a 10 quilômetros da Esplanada dos Ministérios. “Hoje, a Vert é o único datacenter privado em Brasília”, afirma Hiran Franco, vice-presidente da companhia. Ele destaca que a certificação ISO credencia a Vert a participar das concorrências com vantagem competitiva.
No entender de Franco, o setor de TI não entra mais como investimento, mas como despesa, com a contratação de serviços. “Não há mais a necessidade de órgãos públicos investirem bilhões em tecnologia de ponta, salas-cofre e treinamento de pessoal se não é a expertise deles. Além disso, os data centers públicos já estão esgotados”, completa ele diante da rapidez da obsolescência do setor de TI.

Quem pode sair perdendo nesse processo são os data centers públicos. Iran Porto, diretor de Operações do Serpro, admite que, em alguns serviços, há, de fato, um esgotamento. Além disso, o Serpro registrou prejuízo de R$ 245 milhões no ano passado e tem dívidas de R$ 180 milhões, o que limita a capacidade de investimento. “Estamos otimizando nossa capacidade em outras áreas, e a nuvem é um exemplo”, afirma Porto.

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