Cadê o banco que estava aqui?

Publicado no site convergenciadigital.uol.com.br em 17 de agosto de 2016.

Por Sigmar Frota 

Certamente você já leu em algum artigo ou já ouviu a palavra Fintech. Em termos simples, trata-se de uma empresa – normalmente do tipo startup –  que oferece soluções financeiras como uma plataforma de serviços. Elas atuam como uma alternativa aos serviços prestados pelos bancos, financeiras, operadoras de cartões e seguradoras tradicionais, e têm conseguido cada vez mais adeptos e clientes no mercado financeiro, atraindo um público diversificado, dinâmico e jovem, geralmente mais habituado às novas tecnologias e bem mais reativo às burocracias usuais e alta fricção de uso dos serviços – e suas taxas – das instituições financeiras.

As Fintechs são, na prática, resultado da onda de inovações disruptivas que têm impactado o mercado consumidor moderno e a forma de fazer negócios das empresas na era digital. E tais inovações, definitivamente, tem gerado impactos e chamado a atenção dos bancos e empresas do mercado financeiro.

Conceitualmente, a expressão inovação disruptiva foi cunhada em 1995 por Clayton Christensen, professor de Harvard, em seu artigo Disruptive Technologies: Catching the Wave. De forma simples, a expressão se aplica quando uma empresa inventa um processo ou lança uma tecnologia de menor custo, muito mais acessível ao cliente e mais eficiente em seus resultados; fixando preços e margens menores que as praticadas, criando uma revolução nos mercados que antes eram atendidos – ou ignorados – por tradicionais provedores de serviços e produtos. Como resultado direto, depois de certo tempo, tais empresas costumam crescer e deixar na obsolescência outras empresas que antes eram líderes de mercado.

O mais fantástico do conceito e de sua aplicação é que, na era digital, tais inovações disruptivas podem ser feitas sem grandes ou nenhum investimento em ativos físicos. Exemplos são muitos e conhecidos. O Uber se consolida como o maior serviço de transporte individual da atualidade, e isso sem possuir um veículo sequer. A Netflix se tornou a maior plataforma de audiência de filmes do mundo sem ser dona de nenhuma sala de cinema. O WhatsApp é, faz algum tempo, a principal ferramenta de troca de mensagens da telefonia móvel, substituindo a maioria das interações por voz que eram feitas por telefone, mesmo sem controlar uma única linha telefônica.

É essa natureza disruptiva da inovação trazida pelas fintechs: um confronto direto com ativos, preços, modelo de negócios que bancos e instituições financeiras vêm praticando há anos com seus clientes. Será que há saída para a provocação em forma de pergunta futura, mas bem próxima da realidade presente, que fizemos no título “Cadê o banco que estava aqui?”? São poucas as alternativas de reações – pois é isto que os bancos estão fazendo, ou seja, reagindo -, mas apontamos duas.

Em primeiro lugar, é importante achar uma forma mais veloz de inovar e lançar novos produtos, reduzindo o chamado time-to-market. E junto com a velocidade, prover opções de menor fricção de uso via design funcional (UX/UI) dos produtos e fazer adoção intensa da tecnologia para simplificar as transações e relações com os clientes.

Para atender a esta primeira sugestão, um ponto é essencial: há de se aprender e incorporar a mecânica de produção de inovação das startups, o que permite a elas toda essa dinâmica e velocidade operacional. Basicamente, o que se deve fazer é incorporar a cultura enxuta (Lean), a partir da qual se busca lançar produtos e serviços com muito mais rapidez e sem fixação no “100% perfeito e 100% completo”. Por meio deste conceito de produção, incorporado a um banco e a sua área de produto e canais de atendimento que já conhecem bastante os desejos e problemas de seus clientes atuais, se permite lançar produtos ou serviços minimamente viáveis, o que a cultura Lean chama de MVP (Minimun Viable Product), aperfeiçoando-os com o tempo conforme se recebe feedbacks do público alvo.

Em segundo lugar, é importante que os bancos ataquem a si mesmos, e se “uberizem” em sua forma de produzir tecnologia; usando aqui um neologismo emprestado em forma de verbo, muito comum nos discursos de novas empresas do Vale do Silício.

Para esta segunda sugestão, o instituto de pesquisas Gartner, desde 2014, vem insistindo que as áreas de TI (Tecnologia da Informação) devem implementar a TI “Bimodal” em suas estruturas. O chamado Mode 1, seria representando pela “TI de classe corporativa”, classicamente responsável por entregar serviços de TI eficientes, com altos níveis de aderência processual, excelência e confiabilidade. Já o chamado Mode 2 da TI Bimodal, uma classe de “TI oportunista”, seria uma estrutura de resposta voltada para aproveitar novas oportunidades, com soluções baseadas em novos modelos de negócio e não convencionais, suporta por diretivas que privilegiam aspectos como agilidade e flexibilidade.

Concluindo, a pergunta “Cadê o banco que estava aqui?” parece induzir a uma reflexão de alteração cultural que afeta o tipo e tempo de resposta  que os novos – ou já estabelecidos – clientes vêm demandando dos bancos e instituições financeiras em um cenário de plena inovação disruptiva  imposto chegada das  fintechs, onde a velocidade com que se inova parece ser fator crucial para a sobrevivência de ambos, sejam bancos ou fintechs.

Cabe aqui a lembrança de um sábio e apropriado adágio africano, que invoca a velocidade como diretiva maior da vida selvagem das savanas africanas, que diz “Toda manhã nas savanas da África, a gazela acorda. Ela sabe que precisa correr mais rápido que o mais rápido dos leões para sobreviver. Toda manhã o leão acorda. Ele sabe que precisa correr mais rápido que a mais lenta das gazelas para não morrer de fome. Assim, na África, não importa se você é um leão ou uma gazela. Quando o sol nascer, comece a correr.”

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